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PREFÁCIO DA INOCÊNCIA

 

Cinco e trinta da manhã

Onze horas da noite

A chuva já cessou

Meio dia e uma

Música dentro de mim

Quase que me salva

Mas, já estou tão senil

E tão só

Ninguém quererá por pouco que seja

Bater a porta do moribundo

E dizer-me:

"Olhe, eu sei da vida,

mas pense e veja

Eu posso ser seu amigo"

O relógio é duro demais

E meu pensamento um

Pobre coletor de lixo

Das cenas reais da minha vida

Eu vou e volto, vou e volto

...Indeciso...

Não sabendo aonde ir me refugiar de

Minha falta de verdade

Minha angústia de derrotado

Minha falta de adjetivos

Eu só gostaria de entender

Mas minha plataforma é um

Promontório a desabar com o

Furacão que se aproxima

Eu matei o som

Mas disse em tom formal:

"Melhor agora"

E caso eu morra após esse

Exercício de escrita

Morrerei dizendo:

"Melhor agora"

E sentirei o impacto de

Um olho sobre outro olho

De um par no mundo

Lotado demais, mas

Eu poderei ver aquele instante

Dito e estabelecido:

"Melhor agora"

E quem há de negar?

"Ainda pode-se vangloriar"

Diria o rapaz feliz de uma esquina suja

"Você lançou algumas moedas

Dentro de um poço de pedidos"

Terminaria dizendo com um sorriso bobo

O que vem consolar

"Melhor agora" diria eu eternamente

Mas os relógios não permitem

A concreção de um "Melhor agora"

É tão certo que ninguém baterá à porta

Para dizer: "há quanto tempo, meu velho

Lembra-se daqueles velhos dias de outrora"

Mas o conforto está em se iludir

Numa máxima como:

"Melhor agora"

Todos já devem ter se voltado

Para um poço de água barrenta

Que recebe moedas e pedidos

Nasce uma vontade de lançar moedas

Até que o relógio me mate

Ele prega essa aflição

O dia come a noite que desmonta a madrugada

E nem o sono forte

Faz esquecimento: um sopro

Da glória para a angústia

"Você nunca sente angústia?"

Eu vivo nela

Hoje ela deve estar tão presente

Por causa de uma pergunta...

Uma pergunta que não me sai...

No instante do início da coragem

O dia escurece e nada

Num instante, um relâmpago

Daqui a pouco

Chega a madrugada e o

Relógio não gosta de paz

Ponteiros de segundos que torturam

Ponteiros de minutos que açoitam

Ponteiros de horas que enforcam

Está escapando:

A vida, a solução

O todo, a única chance

Resta o rufar dos tambores anunciando

Novos enganos, novas derrotas

Explode um caminho, andar sem rumo

Finalmente há uma trégua

Pergunta-se o que era necessário

O tiro só feriu

"Nada de grave" disse o doutor

"Pode ir para casa"

Um acesso de euforia

Pois a derrota é um soco carinhoso

Não há nada comum aqui dentro

O prefácio da inocência está escrito

Mas eu não o entendo

Porém, não é necessário compreendê-lo

Tudo se volta

Os relógios voltam a funcionar

Para mim só um

Novo diapasão

Estrada escura, ruas cinzentas

Não me apetecem mais os poços

De pedidos

Aliás, as estrelas cadentes...

Mas, minha moeda estará

Em meu bolso