Clássico. Chuva é um conto dos mais envolventes. Se o leitor quiser um exemplo concreto de construção de um conto o terá em "Chuva". Maugham, injustamente criticado ao longo do tempo, é um mestre ímpar na técnica narrativa. Ao penetrar na trama, o leitor consegue facilmente ser tocado pelas imagens, ao mesmo tempo que é bombardeado pelo drama. Maugham é um autor que deve ser lido e relido amiúde. Genial, tanto no conto, como no romance e também em sua faceta menos conhecida a de ensaísta. (Flávio Bredariol)
CHUVA
W. Somerset Maugham
A hora de deitar aproximava-se. Quando despertassem, logo pela
manhã, poderiam ver a terra. O Dr. Macphail acendeu novamente
seu cachimbo e, apoiando o peito na amurada, tentou encontrar o
Cruzeiro do Sul. Após dois anos convivendo com os campos de
batalha e com um ferimento que demorara imensamente para ser
cicatrizado, ele sentia-se contente por poder descansar por um
ano em Ápia. Desse modo, apenas a viagem já lhe parecia um
refresco. Devido ao fato de alguns passageiros deixarem a embarcação
em Pago Pago, na manhã que se seguiria, foi realizado um baile
naquela noite. Nos tímpanos do médico ainda soavam as notas
musicais daquela pianola. Agora, porém, o convés estava
finalmente calmo. A uma pequena distância, viu a mulher numa
cadeira de convés, a conversar com os Davidsons, e dirigiu-se
para lá. Quando se sentou sob a luz e tirou o chapéu, deixou
ver um cabelo muito ruivo, com uma coroa no topo, e aquela pele
rosada e sardenta que normalmente acompanha o cabelo ruivo; era
um homem de quarenta anos, magro, com uma cara chupada, exigente
e bastante afetado; e falava com sotaque escocês num tom baixo e
calmo.
Entre os Macphails e os Davidsons, que eram missionários,
nascera aquela intimidade de companheiros de viagem, devida mais
à proximidade do que a qualquer identidade de gostos. O que mais
os ligava era a condenação, que partilhavam, dos homens que
passavam os dias e noites na sala de fumo a jogar o pôquer ou o
bridge, e a beber. Mrs. Macphail sentia-se particularmente
lisonjeada ao pensar que ela e o marido eram as únicas pessoas a
bordo com quem os Davidsons gostavam de conviver, e mesmo o médico,
tímido mas não tolo, reconhecia meio inconscientemente aquela
amabilidade. Apenas o seu espírito crítico o levava, à noite,
no beliche, a fazer certos comentários malévolos.
"Mrs.Davidson estava a dizer que não sabia como é que eles
conseguiriam suportar aquela viagem se não fôssemos nós,"
disse Mrs.Macphail, enquanto escovava cuidadosamente a cabeleira
postiça. "Ela disse que nós fomos realmente as únicas
pessoas do barco que eles gostaram de conhecer."
"Nunca pensei que um missionário fosse uma pessoa tão
importante para se armar dessa maneira."
"Não é armar. Percebo perfeitamente o que ela quer dizer.
Não teria sido muito agradável para os Davidsons terem de se
misturar com todo aquele grupo tão grosseiro na sala de fumo."
"O fundador da religião deles não era tão seletivo,"
disse o dr.Macphail com um riso abafado.
"Já te pedi muitas vezes que não brincasses com a religião,"
respondeu a mulher. "Eu não gostava de ser como tu, Alec.
Nunca procuras o melhor das pessoas."
Ele olhou-a de soslaio, com os seus olhos azuis, e não respondeu.
Depois de muitos anos de vida de casado, já aprendera que o
melhor caminho para a paz era deixar à mulher a última palavra.
Despiu-se primeiro do que ela, e, depois de subir para a cama de
cima, acomodou-se para a sua habitual leitura até adormecer.
Quando chegou ao convés, na manhã seguinte, estavam já muito
próximos de terra. Olhou-a cobiçosamente. Via-se uma estreita
faixa de praia prateada que subia íngreme para as colinas
cobertas até acima de vegetação luxuriante. Os coqueiros,
espessos e verdes, vinham quase até à beira-mar, e no meio
deles viam-se as casas de bambu dos samoanos; e aqui e ali, a
brancura reluzente de uma pequena igreja. Mrs.Davidson veio também
e ficou a seu lado. Estava vestida de preto e trazia ao pescoço
uma corrente de ouro, de onde pendia uma cruz. Era uma mulher
pequena, de cabelo castanho baço arranjado de uma maneira muito
elaborada, e tinha uns olhos azuis salientes por detrás de umas
lunetas quase invisíveis. Tinha um rosto comprido, como o das
ovelhas, mas que não deixava uma impressão de tolice, mas antes
de vivacidade; tinha os movimentos rápidos dos pássaros. A
coisa mais notável nela era a voz, alta, metálica, e sem inflexões;
caía-nos no ouvido com uma monotonia áspera, irritante, como o
zumbido impiedoso de uma broca pneumática.
"Isto, para os senhores, deve ser quase como estar em casa,"
disse o dr.Macphail com o seu sorriso fino e difícil.
"As nossas são ilhas baixas, sabe, não são como estas. São
de coral. Estas são vulcânicas. Ainda temos mais dez dias de
viagem até lá chegar."
"Por estas partes, isso é quase como estar na rua a seguir
à nossa casa," disse o Dr.Macphail gracejando.
"Bem, isso é uma maneira um tanto exagerada de pôr as
coisas, mas, realmente, nos Mares do Sul as distâncias encaram-se
de uma maneira diferente. Nesse ponto, tem razão."
O Dr.Macphail suspirou levemente.
"Ainda bem que não estamos destacados aqui," continuou
ela. "Dizem que é um lugar difícil para trabalhar. O
contato com os navios cria uma certa agitação nas pessoas; e
depois há o posto naval; e isso é mau para os indígenas. No
nosso distrito não temos estas dificuldades com que lutar. Há
um ou dois comerciantes, claro, mas nós tratamos de fazer com
que se comportem decentemente, e se não o fazem, nós tornamo-lhes
as coisas tão difíceis que eles acabam por querer ir embora."
Ajustou os óculos e fixou a ilha verde com um olhar impiedoso.
"É quase desesperada a tarefa dos missionários aqui. Nunca
poderei agradecer a Deus o bastante por, pelo menos, termos sido
poupados a isto."
O distrito de Davidson consistia de um grupo de ilhas ao norte da
Samoa; eram muito distantes umas das outras e ele tinha de viajar
muitas vezes longas distâncias de canoa. Nessas alturas a mulher
ficava na sede e dirigia a missão. O Dr.Macphail sentiu um
calafrio ao pensar na eficiência com que ela certamente a
dirigia. Ela falava da depravação dos indígenas num tom que
nada conseguia calar, mas com um horror veementemente melífluo.
O seu sentido de pudor era muito singular. Ainda no início da
sua relação, ela tinha-lhe dito:
"Sabe que os costumes dos casamentos na ilha, quando nós
viemos para cá, eram de tal maneira chocantes que eu seria
incapaz de lhos descrever. Mas eu vou contar a Mrs.Macphail e ela
conta-lhe a si."
Mais tarde ele vira a mulher e Mrs.Davidson, com as cadeiras de
convés muito juntas, numa conversa muito séria que durou cerca
de duas horas. Enquanto passeava de um lado para o outro para
fazer exercício, ouvira os sussurros agitados de Mrs.Davidson,
como o murmúrio de uma cascata distante, e, pela boca aberta e
palidez da mulher, viu que ela estava a apreciar uma experiência
alarmante. À noite, no beliche, ela repetiu-lhe, de respiração
suspensa, tudo o que tinha ouvido.
"Então, o que é que eu lhe disse?" exclamou Mrs.Davidson
exultante, na manhã seguinte. "Alguma vez ouviu coisa mais
medonha? Com certeza que não ficou admirado de eu não ter
podido contar-lhe, pois não? Mesmo sendo o senhor médico."
Mrs.Davidson perscrutou-lhe a expressão. Ela tinha uma avidez
dramática em verificar se tinha conseguido o efeito desejado.
"Acha que é de admirar que tenhamos ficado desalentados
quando para lá fomos a primeira vez? Com certeza não me vai
acreditar se eu lhe disser que era impossível encontrar uma única
boa rapariga em qualquer das aldeias."
Ela usou a palavra boa no sentido rigorosamente técnico.
"Eu e Mr.Davidson falamos sobre o assunto e decidimos que a
primeira coisa a fazer era acabar com a dança. Os indígenas
eram doidos pela dança."
"Eu próprio também não desgostava quando era novo,"
disse o Dr.Macphail.
"Eu calculei isso mesmo quando o ouvi pedir a Mrs.Macphail,
a noite passada, para dar uma voltinha consigo. Parece-me que não
há qualquer mal em um homem dançar com a sua mulher, mas fiquei
aliviada quando ela recusou. Naquelas circunstâncias pensei que
seria melhor mantermos uma certa reserva."
"Quais circunstâncias?"
Mrs.Davidson lançou-lhe um olhar rápido através das lunetas,
mas não respondeu à pergunta.
"Mas entre os brancos não é bem a mesma coisa,"
continuou ela, "embora deva dizer que concordo com Mr.Davidson,
que diz que não consegue compreender como é que um marido pode
ficar a ver a mulher nos braços de outro homem, e pelo que me
diz respeito, desde que casei, nunca mais dei um passo de dança
sequer. Mas a dança indígena é uma coisa completamente
diferente. Não só é imoral em si própria, mas leva também
claramente à imoralidade. Contudo, agradeço a Deus o fato de
termos acabado com ela, e creio não estar enganada se disser que
já ninguém dança no nosso distrito há oito anos."
Mas nessa altura tinham chegado à entrada do porto e Mrs.Macphail
juntou-se-lhes. O navio virou bruscamente e entrou devagar. Era
um porto grande, rodeado de terra, com espaço suficiente para
acolher uma esquadra de navios de guerra; e a toda a volta
erguiam-se colinas verdes, altas e escarpadas. Próximo da
entrada, batida pela brisa que soprava do mar, ficava a casa do
governador, dentro de um jardim. A bandeira americana pendia
languidamente dum mastro. Passaram por dois ou três bangalôs
bem arranjados e um campo de tênis, e depois chegaram ao cais,
com os seus armazéns. Mrs.Davidson apontou para a escuna
ancorada duzentos ou trezentos metros ao lado, e que os havia de
levar até Apia. Havia uma multidão de indígenas ávidos,
barulhentos e bem dispostos vindos de todas as partes da ilha,
uns por curiosidade, outros para trocar gêneros com os
passageiros em trânsito para Sidney; e traziam ananases e
grandes cachos de bananas, tecidos exóticos, colares de conchas
ou dentes de tubarão, potes de kava e miniaturas de canoas de
guerra. Os marinheiros americanos, limpos e bem arranjados,
barbeados e de expressão franca, deambulavam entre eles, e via-se
um pequeno grupo de funcionários. Enquanto as bagagens eram
levadas para terra, os Macphails e Mrs.Davidson observavam a
multidão. O Dr.Macphail olhava para as marcas de framboesia de
que a maioria das crianças e rapazes parecia sofrer, chagas que
desfiguram, como úlceras latentes, e o seu olhar profissional
brilhou quando viu pela primeira vez na sua experiência casos de
elefantíase, homens a andar por ali com um braço enorme e
pesado ou a arrastar uma perna grosseiramente desfigurada. Homens
e mulheres usavam o lava-lava.
"É um vestuário perfeitamente indecente," disse
Mrs.Davidson. "Mr.Davidson acha que devia ser proibido por
lei. Como é que se pode esperar que as pessoas se comportem
moralmente quando, como vestuário, apenas trazem uma tira de
algodão vermelho à volta das ancas?"
"Está muito bem para o clima," disse o médico,
enquanto limpava o suor da testa.
Agora, que estavam em terra, embora ainda fosse de manhã cedo, o
calor já era opressivo. Fechada no meio das colinas, nem uma
ligeira brisa chegava a Pago-Pago.
"Nas nossas ilhas," continuou Mrs.Davidson no seu tom
esganiçado, "praticamente erradicamos o lava-lava. Só
alguns velhos ainda continuam a usá-lo. Todas as mulheres começaram
a usar o Mother Hubbard, e os homens usam calças e camisola
interior. No princípio da nossa estadia Mr.Davidson escreveu num
dos seus relatórios: os habitantes destas ilhas nunca poderão
ser completamente cristianizados enquanto todos os rapazes de
mais de dez anos não forem obrigados a usar calças."
Mas Mrs.Davidson tinha lançado dois ou três olhares rápidos às
densas nuvens cinzentas que pairavam sobre a entrada do porto.
Começaram a cair alguns pingos.
"Era melhor abrigarmo-nos," disse ela.
Dirigiram-se com toda aquela gente para um grande telheiro de
chapas de ferro onduladas, e a chuva começou a cair
torrencialmente. Ficaram ali durante algum tempo, e depois Mr.Davidson
juntou-se-lhes. Durante a viagem ele fora bastante amável para
com os Macphails, mas não era tão sociável como a mulher, e
passara muito do seu tempo a ler. Era um homem calado, bastante
taciturno, e ficava-se com a impressão de que a sua afabilidade
era um dever que ele se impunha cristãmente a si próprio; era
reservado e mesmo insociável por natureza. Tinha uma aparência
invulgar. Era muito alto e magro, com braços e pernas compridos
e soltos; faces cavadas e malares curiosamente salientes; tinha
um ar tão escaveirado que os lábios grossos nos surpreendiam
pela sua sensualidade. Usava o cabelo muito comprido. Os olhos
escuros, fundos nas órbitas, eram grandes e trágicos; e as mãos,
com dedos grossos e compridos, tinham um aspecto fino; davam-lhe
um ar de grande força. Mas o mais notável nele era a impressão
que nos deixava de um fogo reprimido. Era impressivo e vagamente
perturbador. Não era homem com quem fosse possível qualquer
intimidade.
Trazia agora más notícias. Havia na ilha uma epidemia de
sarampo, uma doença grave e muitas vezes mortal entre os Kanakas,
e tinha-se detectado um caso entre a tripulação da escuna que
os havia de transportar. O doente tinha sido trazido para terra e
levado para o hospital, onde ficou no posto de quarentena, mas
tinham vindo instruções telegráficas de Apia no sentido de que
a escuna não seria autorizada a entrar no porto até que
houvesse a certeza de que nenhum outro membro da tripulação
estava contaminado.
"Isto significa que teremos de ficar aqui pelo menos dez
dias."
"Mas a minha presença é necessária urgentemente em Apia,"
disse o Dr.Macphail.
"Não há nada a fazer. Se não forem detectados mais casos
a bordo, a escuna será autorizada a partir com passageiros
brancos, mas todo o trânsito de indígenas está proibido
durante três meses."
"Há aqui algum hotel?" perguntou Mrs.Macphail.
Davidson deu uma gargalhada abafada.
"Não, não há."
"Então o que é que vamos fazer?"
"Estive a falar com o governador. Há um comerciante aí na
esplanada que tem quartos para alugar, e eu proponho que, mal a
chuva pare, vamos lá ver o que podemos fazer. Não esperem
conforto. Temos é que ficar muito gratos se conseguirmos uma
cama para dormir e um tecto para nos abrigar."
Mas a chuva não mostrava sinais de parar, e por fim, com guarda-chuvas
e impermeáveis, puseram-se a caminho. Não havia propriamente
uma cidade, mas apenas um grupo de edifícios oficiais, uma ou
duas lojas e, atrás, por entre coqueiros e bananeiras, algumas
habitações indígenas. A casa que procuravam ficava a cerca de
cinco minutos, a pé, do embarcadouro. Era uma casa de madeira,
de dois andares, com grandes varandas em ambos, e telhado de
chapas de ferro onduladas. O dono era um mestiço chamado Horn,
com um mulher indígena rodeada de criancinhas morenas, e no rés-do-chão
tinha uma loja onde vendia enlatados e tecidos de algodão. Os
quartos que lhes mostrou não tinham quase mobília nenhuma. O
dos Macphails não tinha nada a não ser uma reles cama, já
muito velha, com um mosquiteiro esfarrapado, uma cadeira meio
desconjuntada, e um lavatório. Olharam à sua volta desanimados.
A chuva torrencial caía sem cessar.
"Só vou tirar das malas aquilo de que realmente precisarmos,"
disse Mrs.Macphail.
Mrs.Davidson entrou no quarto quando ela estava a abrir uma mala.
Estava muito animada e vivaz. O ambiente sombrio não a afetou.
"Se quer um conselho, pegue numa agulha e num bocado de
tecido de algodão e comece já a remendar o mosquiteiro,"
disse ela, "senão não vão conseguir pregar olho esta
noite."
"Os mosquitos vão incomodar muito?" perguntou o Dr.Macphail.
"Estamos na época deles. Quando os senhores forem
convidados para uma festa no Palácio do Governo, em Apia, vão
reparar que eles distribuem a todas as senhoras uma fronha para
elas meterem as
os membros inferiores lá dentro."
"Se a chuva ao menos parasse um bocado," disse Mrs.Macphail.
"Com sol eu teria mais ânimo para tentar dar a este quarto
um ar mais confortável."
"Oh, se a senhora está a contar com isso, bem pode esperar.
Pago-Pago é dos lugares mais chuvosos do Pacífico. Está a ver,
as colinas, e aquela baía, elas atraem a água, e, aliás, a
chuva já é de esperar nesta altura do ano."
Ela correu o olhar de Macphail para a mulher, um em cada canto,
desamparados, como almas perdidas, e apertou os lábios. Viu que
tinha de lhes deitar a mão. Pessoas assim débeis impacientavam-na,
mas uma espécie de comichão nas mãos impelia-a a pôr tudo em
ordem, o que era em si uma coisa natural.
"Ora, arranje-me aí uma agulha e tecido de algodão e eu
remendo-vos esse vosso mosquiteiro, enquanto a senhora continua a
tirar as coisas das malas. O almoço é à uma. Dr.Macphail, era
melhor o senhor ir até ao embarcadouro ver se eles vos puseram
as malas grandes em sítio seco. O senhor sabe como são estes
indígenas, são muito bem capazes de as ter posto num sítio
onde apanham chuva a toda a hora."
O médico vestiu o impermeável outra vez e desceu as escadas. À
porta estava Mr.Horn a conversar com o contramestre do navio em
que tinham vindo e com uma passageira da segunda classe que o Dr.Macphail
tinha visto várias vezes a bordo. O contramestre, um homem baixo,
enrugado, extremamente sujo, baixou-lhe a cabeça quando ele
passou.
"Coisa feia, esta do sarampo, doutor," disse ele.
"Já vi que os senhores já se instalaram."
O Dr.Macphail achou muita familiaridade da parte do homem, mas
como era um tímido, não se ofendia facilmente.
"Sim, arranjamos um quarto lá em cima, no primeiro andar."
"Miss Thompson ia viajar com os senhores para Apia, por isso
trouxe-a para aqui."
O contramestre apontou com o polegar a mulher que estava a seu
lado. Tinha talvez vinte e sete anos, roliça, e de uma beleza
grosseira. Trazia um vestido branco e um grande chapéu, também
branco. As barrigas das pernas, gordas, dentro de meias brancas
de algodão, saíam-lhe do topo das botas altas brancas, de
pelica envernizada. Sorriu a Macphail de maneira insinuante.
"Este tipo está a tentar cravar-me dólar e meio por dia
por esta espelunca," disse ela em voz rouca.
"Já lhe disse que ela é uma amiga minha, Jo," disse o
contramestre. "Ela não pode pagar mais do que um dólar e
você tem de a deixar ficar por isso."
O comerciante era gordo e sorria calmamente.
"Bem, se o senhor põe a questão nesse pé, Mr.Swan, vou
ver o que posso fazer. Vou falar com Mrs.Horn e se nós virmos
que podemos fazer um desconto, fazemos."
"Não me venha com essa conversa fiada," disse Miss
Thompson. "Vamos resolver isto já. Você vai arrecadar um dólar
por dia pelo quarto e nem mais um centavo."
O Dr.Macphail sorriu. Admirava o desaforo com que ela negociava.
Ele era o tipo de pessoa que pagava sempre o que lhe pediam.
Preferia pagar mais do que o devido a regatear. O comerciante
suspirou.
"Bem, para ser agradável a Mr.Swan, aceito."
"Assim é que é," disse Miss Thompson. "Entre e
venha daí beber um trago de whisky a martelo. Tenho ali uma boa
pinga de centeio naquela mala, se o senhor ma trouxer, Mr.Swan.
Venha também, Doutor."
"Oh, obrigado, mas não posso," respondeu ele. "Vou
só ali abaixo ver se a nossa bagagem está bem."
Saiu para a chuva, que vinha varrida desde a entrada do porto, em
lençóis de água, e a costa do lado oposto estava toda enevoada.
Passou por dois ou três indígenas vestidos apenas com o lava-lava
e guarda-chuvas enormes a cobri-los. Caminhavam com elegância,
com movimentos calmos, muito direitos; e, quando ele passou,
sorriram e cumprimentaram-no numa língua desconhecida.