O LABIRINTO
Jorge Luis Borges
Zeus não podia desatar as redes
de pedra que me cercam. Esqueci-me
dos homens que antes fui, sigo o odiado
caminho de monótonas paredes
que é o meu destino. Rectas galerias
que se curvam em círculos secretos
no término dos anos. Parapeitos
que a mesquinhez dos dias tem fendido.
No pálido pó decifrei
rastos que temo. O ar me tem trazido
pelas côncavas tardes um bramido
ou o eco de um bramido desolado.
Sei que na sombra há Outro, cuja sorte
é fatigar as longas soledades
que tecem e destecem este Hades
e ansiar meu sangue e me tragar a morte.
Buscamo-nos os dois. Como eu quisera
fosse este o último dia desta espera!

Foto: Edward Weston
AS COISAS
Jorge Luis Borges
A bengala, as moedas, o chaveiro,
a dócil fechadura, essas tardias
notas que não lerão meus poucos dias
que restam, o baralho e o tabuleiro,
um livro e dentro dele a esmagada
violeta, monumento de uma tarde
por certo inolvidável e olvidada,
o rubro espelho ocidental em que arde
uma ilusória aurora Quantas coisas,
limas, umbrais, atlas, copos, cravos,
nos servem como tácitos escravos,
cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para alem do nosso olvido
e nunca saberão que já nos fomos.
A TRAMA
Jorge Luis Borges
As migrações que o historiador, guiado pelas
incertas relíquias da cerâmica e do bronze,
deseja fixar no mapa e que os povos que as
realizaram não compreenderam.
As divindades da madrugada que não deixaram
nem um ídolo nem um símbolo.
O sulco do arado de Caim.
A geada na erva do Paraíso.
Os hexagramas que um imperador descobriu na
carapaça de uma das tartarugas sagradas.
As águas que não sabem que são o Ganges.
O peso de uma rosa em Persépolis.
O peso de urna rosa em Bengala.
Os rostos postos por uma máscara guardada numa
vitrina.
O nome da espada de Hengist.
O último sonho de Shakespeare.
A pena que traçou o curioso verso: He met the
Nightmare and her name he told.
O primeiro espelho, o primeiro hexâmetro.
As páginas que um homem pardo leu e que lhe
revelaram que podia ser D. Quixote.
Um ocaso cujo vermelho perdura num vaso de
Creta.
Os brinquedos de uma criança que se chamava
Tibério Graco.
O anel de ouro de Polícrates que o Fado recusou.
Não há uma única dessas coisas perdidas que não
projecte agora uma vasta sombra e que não
determine o que fazes hoje ou o que farás amanhã.