Teatro Vulgar
Uma cena recorrente no imaginário coletivo é a de estar diante de um determinado público e não saber o que fazer. Estar, de repente, frente a frente com pessoas que querem que você realize algo que você, certamente, não imagina o que seja.
Num de seus filmes, o diretor espanhol Luis Buñel coloca essa situação como numa das muitas seqüências oníricas: a personagem vê-se num palco tendo de representar, ou fazer algo assim, sem que tenha consciência do que tenha de fazer ou dizer; aterrorizado.
Mas a vida é um eterno representar e, quando menos se espera, um papel nos é dado e temos que faze-lo com esmero. No entanto, o ato de descobrir que não passamos de atores risíveis interpretando peças dignas de crianças do jardim da infância faz-nos cair num terror profundo. Estamos desmascarando o mundo e, pior ainda, estamos desmascarando a nós mesmos.
Andar pelas ruas fétidas e saber que todos ali estão brincando de construir. A construção é o grande ideal de todas as sociedades, e em nossa sociedade de interpretações isso não poderia ser diferente. O grande divisor de águas é que construímos a porcaria mas interpretamos como se estivéssemos a construir uma obra de beleza divina.
Certo dia eu cagava pelas ruas nojentas do mundo quando vi, pela janela do ônibus podre que me conduzia, um sujeito dentro do carro, lá embaixo na rua. Cinqüenta e poucos anos, meio careca, uma pilha de documentos no banco do passageiro, um celular do lado e um cigarro que era incessantemente fumado. Representava divinamente. Para que ficava ali com aquela tensão acumulada? Qual a necessidade de ficar desgraçando-se? Para que deixar o reinos dos bostas para seus congêneres que o desgraçarão daqui algum tempo?
Ele jamais iria me responder. Mas um dia ele vai ter a mesma sensação que venho tendo. Ele vai. Ele irá olhar para frente e miríades de olhos estarão afoitos para que ele comece a interpretar. Então, ele lembrará que não lhe deram o script. Apavorante.