Multiplicidade
Stevenson coloca na boca de sua personagem Dr. Jekil: "Basta eu beber a poção para ver-me livre do corpo do professor emérito e tomar, como um espesso manto, o de Edward Hyde."
Uma sensação consagrada e já há muito testada e comprovada. Mas qual a motivação desse comportamento tão obtuso? Por que essa mudança súbita e tão drástica? Não há intenção de querer explicar reações isso é uma patologia, e que fique com os especialistas a forma mais razoável de explica-la , apenas querer registrá-las. Que é instigante, o é. Sim, sem dúvida que é.
E lá se vai mais um dia inteiro em que um homem vive sob o reflexo de um ser ensandecido. O homem também torna-se decidido, nada lhe é impossível. O erro, bem o erro é constante; mas, ele é apenas circunstancial, visto que, passa como um raio e não pode ser notado na sua plenitude: se o erro está feito ele apenas está feito, mas não é possível pensá-lo e recriminá-lo talvez muito tempo depois, mas aí ele não será mais erro, será apenas descompasso, escorregão, patologia outra vez.
A produção de absurdos é incontrolável, e aí deve residir o fator mais empolgante na "multiplicidade de faces". Num pequeno lapso se pode revelar o lado mais nefasto ou o lado mais dionisíaco contido no íntimo. Aquele ser nunca revelado, a máscara está caída no chão e não é possível se abaixar e apanhar aquele pequeno apêndice tão necessário na lide diária.
E o Dr. Jekil conseguiu exemplificar a "nova roupagem", afinal, ele sabia... sim, ele sabia: "Os homens já contrataram outros para realizarem os seus delitos, enquanto eles, em suas pessoas e reputações, ficavam resguardados. Fui o primeiro que fez isso pensando no lado aprazível. Fui o primeiro que pôde, destarte, vir a público com um manto de respeitabilidade cordial e num lance rápido, como um estudante, arrancar esse disfarce e entrar de forma decidida no mar da libertinagem. Mas para mim, em meu manto inviolável, a segurança era total. Reflita: eu nem sequer era real!".