
Pertenço a ordem cujo propósito
não é ensinar ao mundo uma lição,
mas informar que a escola acabou
(Henry Miller)
Cada vez mais o mundo se assemelha a um sonho de entomologista. A Terra está-se movendo para fora de sua órbita; o eixo desviou-se; do norte a neve sopra para baixo em enormes massas azuladas. Nova idade do gêlo está-se firmando, as suturas transversais estão-se fechando e em tôda parte, no cinturão do milho, o mundo fetal está morrendo, transformando-se em mastóide morto. Centímetro a centímetro os deltas estão secando e os leitos dos rios estão lisos como vidro. Nôvo dia vai nascendo, um dia metalúrgico, no qual a terra tilintará com chuvas de minério amarelo brilhante. À medida que o termômetro cai, a forma do mundo fica borrada; osmose ainda existe, e aqui e acolá há articulação, mas na periferia as veias estão tôdas varicosas, na periferia as ondas de luz curvam-se e o sol sangra como um reto rompido.
No próprio centro dessa roda que se está desfazendo, fica Matisse. E êle continuará rolando até que tudo quanto entrou na feitura da roda se tenha desintegrado. Já rolou sôbre considerável porção do globo, sôbre a Pérsia, a Índia e a China, e como um ímã atraiu a si partículas microscópicas do Curdistão, Beluchistão, Timbuctu, Somalilândia, Angkor, Terra do Fogo. As odaliscas, cravejou-as com malaquita e jaspe, sua carne coberta por milhares de olhos, olhos perfumados mergulhados no esperma de baleias. Onde quer que uma brisa sopre há seios tão frios como geléia, pombos brancos vêm esvoaçar e fecundar-se nas veias azul-gêlo dos Himalaias.
O papel de parede com que os homens de ciência cobriram o mundo da realidade está caindo aos pedaços. O grande prostíbulo em que êles transformaram a vida não exige decoração; é essencial apenas que o esgôto funcione convenientemente. A beleza, aquela beleza felina que na América nos segura pelos testículos, está acabada. Para compreender a nova realidade é necessário primeiro desmantelar o esgôto, abrir os canos gangrenados de que se compõe o sistema gênito-urinário que fornece os excretos da arte. O esgôto está entupido por embriões estrangulados.
O mundo de Matisse é ainda belo, à maneira antiquada de um quarto de dormir. Não há um mancal à vista, nem uma chapa de caldeira, nem um pistão, nem uma chave inglêsa. É o mesmo velho mundo que ia alegremente ao Bois nos dias pastorais do vinho e fornicação. Acho calmante e refrescante mover-me entre essas criaturas que vivem e respiram pelos poros, com fundo sólido e estável como a própria luz. Sinto-o pungentemente quando caminho ao longo do Boulevard de la Madeleine e as prostituas roçagam ao meu lado, quando apenas olhar para elas já me faz tremer. É por que são exóticas ou bem nutridas? Não, é raro encontrar uma mulher bonita ao longo do Boulevard de la Madeleine. Mas em Matisse, na exploração de seu pincel, há a trêmula cintilação de um mundo que exige apenas a presença da fêmea para cristalizar as mais fugitivas aspirações. Encontrar uma mulher oferecendo-se diante de um mictório, onde se anunciam papéis de cigarro, rum, acróbatas, corridas de cavalos, onde a folhagem pesada das árvores rompe a massa pesada das paredes e telhados, é uma experiência que começa onde terminam as fronteiras do mundo conhecido. À noitinha, de vez em quando, caminhando ao longo das paredes do cemitério, topo com as odaliscas fantásticas de Matisse amarradas em árvores, ensopadas de seiva as cabeleiras emaranhadas. A alguns passos de distância, transportado pelos incalculáveis éons do tempo, jaz o fantasma prostrado de Baudelaira enfaixado como múmia. Nos cantos escuros de cafés há homens e mulheres de mãos dadas, os rins cobertos de espuma; perto está o garçom com o avental cheio de sous, esperando pacientemente o entreato a fim de cair sôbre sua espôsa e atacá-la. Mesmo quando o mundo cai aos pedaços, a Paris que pertence a Matisse estremece com brilhantes e ofegantes orgasmos, o próprio ar está cheio de esperma estagnado, as árvores emaranhadas como cabelos. Em seu eixo vacilante a roda gira firmemente monte abaixo; não há freios, nem rolamentos de esferas, nem pneumáticos-balão. A roda está-se desfazendo, mas a revolução permanece intacta...
Coisas, certas coisas em meus ídolos trazem-me lágrimas aos olhos: as interrupções, a desordem, a violência, acima de tudo, o ódio que despertaram. Quando penso em suas deformidades, nos monstruosos estilos que escolheram, em seus trabalhos pretensiosos e tediosos, em todo o caos e confusão em que chafurdaram, nos obstáculos que amontoaram ao seu redor, sinto uma exaltação. Todos êles estavam atolados em sua própria merda. Todos, homens que capricharam demais. Tanto isto é verdade que me sinto quase tentado a dizer: Mostrem-me um homem que caprichou demais e eu lhes mostrarei um grande homem! O que chamam de seu excesso de capricho é o que aprecio: é o sinal da luta, é a propria luta com tôdas as fibras prêsas a ela, a própria aura e ambiência do espírito discordante. E quando me mostram um homem que se expressa com perfeição não digo que êle não é grande, mas digo que não me sinto atraído... sinto falta das qualidades saturantes. Quando penso que a tarefa implìcitamente imposta a si próprio pelo artista é derrubar os valôres existentes, fazer do caos que o cerca uma ordem que seja sua própria, semear discórdias e fermento para que pela descarga emocional aquêles que estão mortos possam ser trazidos de volta à vida, então é que corro com alegria para os grandes e imperfeitos, sua confusão alimenta-me, seu gaguejar é como música divina para meus ouvidos. Nas páginas belamente inchadas que se seguem às interrupções vejo as rasuras de mesquinhas intrusões, as pegadas sujas, como se fôssem de covardes, mentirosos, ladrões, vândalos e caluniadores. Vejo nos músculos inchados de suas líricas gargantas o atordoante esfôrço que precisa ser feito para virar a roda, para apanhar o ritmo onde êle foi deixado. Vejo que por trás dos aborrecimentos e intrusões cotidianos, por trás da barata e coruscante malícia dos fracos e inertes, ergue-se o símbolo do poder frustrador da vida, e que quem cria a ordem, quem semeia a luta e a discórdia, porque está imbuído de vontade, êsse homem deve ir e tornar a ir à fogueia e ao patíbulo. Vejo que por trás da nobreza de seus gestos se esconde o espectro do ridículo daquilo tudo que êle é não apenas sublime, mas absurdo.
