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Cronos

 

A luz do dia de outono. Na parede branca do quarto um foco luminoso que assemelhava vir de uma vela. A mosca que pousa na parede e ao mínimo movimento se vai; desaparece de forma contundente. Apenas mais um quadro dos dias que seguem, constrói-se para ver que tudo não passou de uma repetição certeira.

Ela quebra a luz e sua sombra projeta-se gigantesca. Tranqüila, passa a mão no cabelo curto. Anda devagar e parece querer achar um tesouro sobre o assento da cadeira. Olha-me com olhos daquele tempo. Talvez poderia estar pensando sobre como nos encontramos.

O tempo assentava no meio da casa. Sua voz continuava grave, seus cabelos continuavam negros e curtos, seu corpo continuava magro, sua pele continuava alva e cintilante, seus olhos continuavam a me olhar como naquele dia. Inflexível, o relógio no alto da parede do corredor não se mostrava partícipe.

Ela senta-se na cadeira e olha para as suas mãos. Mãos pequenas, dedos finos. Naqueles dias ela já olhava as mãos e, de repente, voltava-se e sorria. Um sorriso que aliviaria as tensões do mundo.

Nosso beijo tão precioso naquele velho jardim. Ela olhou-me e sorriu. Tantos significados, luzes, sombras. Seu corpo colado ao meu e as pequenas palavras que flutuavam ao nosso redor não eram capazes de desfazer a união. E o velho jardim há de ficar para trás. Andamos e não queremos andar. Bastava gravar aquele momento.

A luz do dia aumenta. Ela como em transe, as vezes move-se, as vezes olha-se. Dias, tantos dias, tantas tentativas. Todas as lutas não podem ficar penduradas no alto do corredor. Mas parece ser inapelável.

Emanuelle no espelho. Olha e absorve-se. Está longe mas sabe que estamos lado a lado. Seus olhos brilham no espelho, toca o cabelo e fixa seu olhar no olhar do reflexo.

Será que é assim mesmo, Flávio?

Sua voz vaga pelo quarto. Sinto que minhas forças não estão presentes. Continuo o mesmo covarde que gaguejava, lamentava das faltas de oportunidade e que não sabia escolher as palavras. Tento fixar a imagem do espelho, ela está séria e distante.

Conquistas diárias, relógios malditos, luzes outonais, moscas fugidias. Tantos nãos. Levantar e escancarar a porta de entrada. Permitir que o sol ocupe cada recanto da casa. Mas o movimento é calculado e imediatamente interrompido.

Emanuelle no espelho. Abraço-a por trás e ela segura minhas mãos. Somos reflexos. Sua cabeça toca meu peito, a respiração é ritmada. Beijo-lhe os cabelos e ela finalmente encara-me. Como há tanto tempo.