Brincar de Existir
Meu marido se matou. Inerte, lá estava, lembro-me muito bem, o filete de sangue a escapar; a expressão dura, sem luz e no fundo de seus olhos, no fundo mesmo, consegui adivinhar um reflexo de júbilo. O júbilo da vitória dentro do infinito da morte.
Especular sobre seu feito seria uma tola procura de desculpas. Seu ato foi seu ato; gesto bravo, coragem de escalar montanhas e sentir o hálito do leão. A vontade de não ter mais vontade; a ânsia de cortar as amarras, ele foi seta certeira...
Uma ou duas lágrimas rolaram. Afinal, por aquele corpo eu ansiara. Por aquela massa morta minha mente ficara ocupada e eu sorrira com gozo das vivências dos pequenos prazeres. Enfim, uma vida comum que, por certo, culminaria num bocado de tédio; mas até aquele instante as engrenagens funcionavam bem, lubrificadas.
Depois. Mostrar-se era como expor a marca indelével. Supunha que o signo daquele filete estava marcado a ferro na minha fronte. Andava de cabeça baixa e sentia que os olhares queriam acariciar-me de uma forma a demonstrar a minha culpa. Não, jamais seria vítima, seria o verdugo.
Precisei ser qualquer coisa, exceto eu mesma. Guerreei contra o espelho e fui de encontro as paredes sujas de meu quarto. Minha arma, sempre engatilhada, apontava para qualquer sombra. Eu própria era uma, errando por entre becos escuras e ruas mortas.
À luz de um ocaso, senti o clamor amarelado do astro moribundo. E, então, era hora de tentar quebrar as vidraças, de matar as serpentes e vir à tona. O ocaso sempre reclama solução: desista ou persista.
Não era mais a mesma e era aquela que sempre conheci. A menina que se trancava e chorava de pavor; a adolescente que se sentia morta e invisível e que chorava de nojo; a senhorita que desistiu de ser qualquer coisa, que andava senhora de seu fracasso e que ao chegar em casa chorava de desdém; a mulher casada que não sabia quem era e que no leito chorava de pavor, de nojo, de desdém, de nada.
Segue. O filete de sangue correra. A pequena bola de neve que rola e o mundo que parece ser tão redondo. Por fim, os dois explodirão lá cá embaixo em eterna continuação.
Os novos rigores e as novas posturas. Sempre igual, mas o que melhor que a repetição travestida de diferenciação? Assumir novamente os joguinhos, esconde-esconde, ritos, maneiras adultas de dizer que se é criança.
O primeiro, o segundo, o sétimo. Lençóis brancos, espelhos no zênite, água quente. Tornei-me, outra vez, habitante desta terra lotada de boas intenções e de atos perversos. Avançava na convivência: era lúdica, era séria, era histérica, era falsa, era fatal, era qualquer roupa que não se ajustasse ao meu manequim.
Sempre haverá quem se encante com brincadeiras; sempre haverá quem as leve ao plano de "metas de vida". Mais um quis se expor ao risco de se jogar num banheiro e esperar a baforada da Morte na nuca.
Sonhei com ele. Seu filete de sangue era mais grosso e os seus olhos esbugalhados não transmitiam nenhum sinal de gozo. Sua morte seria como um ato passional, uma forma de dizer que estaria presente porque estaria morto. Olharia para mim e desejaria-me como a um carro esporte de preço exorbitante: sua paixão seria esquecer-se e, por fim, deixaria para mim seu corpo inerte e seu filete.
Foi como sempre é na sociedade lúdica. Os folgazões análogos riam à grande e outros caiam devido a embriaguez. Os olhos dele não se despregavam de mim. Eu, num deja vu, vagava mantendo meu sorriso de quem trapaça nas bolinhas de gude. Minha aura é a de quem sempre desejou o "inferno" do jogo de amarelinha. Pobre, ele não cabia no seu corpo e seus olhos arregalavam-se a me seguir.
O tempo segue e ser lúdico é esconder-se nos vãos da casa ou pôr fogo no jardim. Ele adora brincar de ser humano, de ser sério, de ser apaixonado, de estar progredindo. Aqui na cama eu arquiteto como poderei vomitar a noite, sozinha e quase calma.
Eu, aqui na cama, nua e protegida por uma armadura de desgosto. Ele foi ao banheiro e ficou por lá. Não quero averiguar, mas se for o que estou pensando não me abaterei. Afinal, não tenho compromissos, roubei nas brincadeiras e o mundo é tão complacente que me dará uma bicicleta no final do ano. A senhora que passeia pelo planeta enojada e que no leito chora por chorar.
Outubro, 1996