186: Berraram um tempo no não-dia
O relógio curioso. Seu ponteiro de segundos girando sem se importar com a desgraça alheia. No calor dos dias que correm sem saber a razão, fica-se com um sentimento de que esses relógios bizarros são máquinas de um comando supremo, que só quer fazer nossa total alienação. Amamos aquele ponteiro girador e ao mesmo tempo o odiamos. Sabemos, e muito bem, que o controle está naquelas voltas quase despropositadas, e quando deparamos com o nosso espelho: já estamos perdidos.
E ficamos com a calculadora na mão a calcular, de forma neurótica, um tempo que não nos pertence. Há tantos e quantos dias isso, há tantos e tantos meses aquilo. E assim, nessa religião fundamentalista do tempo vamos deixando-nos passar. Paramos de acreditar em qualquer sistema que possa promover nossa melhora, o único sistema vigente gira em um compasso de sessenta toques, imutável.
A desgraça contínua e temporal vai ramificando-se e, de repente, pegamo-nos a dizer coisas como: "ah, naquele tempo as coisas eram diferentes, o negócio era bom", sem notarmos que o antes era tão risível quanto o agora e que o mal é apenas um prolongamento daquilo tudo e que esse "fluxo" é, apenas, digno de tempo.
Ficamos embaralhando a vida em sinais horários, deixando para trás nossa necessidade alimentar ou nosso ciclo de cio animal. Tudo passa a existir a partir de uma tabela redonda com doze malditos números, não importando que você não esteja de acordo com ele. É o tempo, pronto. Você joga contra seus princípios se ainda restou algum aguardando que seu relógio pare por falta de corda, de vontade.
Afinal, o mundo tem de ser organizadinho; nos moldes impostos pelos fabricantes da vida. O sonho desses é um relógio a cada metro quadrado, de preferência que o relógio tenha olhos. Mas, é o sistema: do meu lado, fico com uma calculadora somadora de dias, meses e anos, mas grito no deserto e descarto um relógio-algema em meu corpo.